UFLA recebe equipamento inédito e dá salto nas pesquisas em bioenergia

fevereiro 19, 2026

Sistema de alta precisão permite “enxergar” moléculas da biomassa e amplia desenvolvimento de biocombustíveis e produtos sustentáveis

A ciência da bioenergia na Universidade Federal de Lavras (UFLA) acaba de dar um passo decisivo. Um equipamento inédito na instituição — capaz de identificar, em poucos minutos, a composição química da biomassa — começa a operar no Laboratório Multiusuário de Biomateriais e Energia da Biomassa (LAMBEB).

Trata-se de um Sistema de Cromatografia Gasosa acoplada à Espectrometria de Massas com pirólise (PY-GC/MS). Em termos simples: uma tecnologia que permite analisar, no nível molecular, tudo o que é gerado quando a biomassa é submetida ao calor.

A aquisição foi viabilizada com recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG), com gestão administrativa da Fundação de Desenvolvimento Científico e Cultural (FUNDECC). O investimento total, incluindo infraestrutura e insumos, se aproxima de R$ 900 mil.

O que esse equipamento muda na prática?

Muda a escala da pesquisa.

O pirolisador funciona como um forno de altíssima precisão. Pequenas amostras de biomassa são aquecidas e liberam vapores. Esses vapores seguem imediatamente para análise, permitindo identificar exatamente quais compostos químicos estão presentes.

É como transformar fumaça em informação.

Segundo o professor Thiago Protásio, coordenador do projeto, o equipamento representa um salto técnico importante.

“A ciência evolui rapidamente e exige ferramentas cada vez mais sofisticadas. Não podemos permanecer apenas com métodos clássicos. Esse equipamento nos permite avançar em nível molecular e ampliar muito a qualidade das nossas análises.”

Na prática, o sistema permitirá:
• Identificar os compostos presentes no bio-óleo gerado durante a pirólise;
• Analisar os vapores formados na produção de carvão vegetal;
• Caracterizar combustíveis líquidos obtidos a partir de resíduos agrícolas e florestais;
• Desenvolver produtos de maior valor agregado a partir da biomassa.

“Cada pico no gráfico representa uma substância química. A partir daí, conseguimos comparar com bibliotecas internacionais e saber exatamente o que está ali”, explica o professor.

Da casca de café ao nível molecular

Nos últimos meses, o laboratório já vinha chamando atenção com pesquisas que transformam resíduos como a casca de café em pellets — pequenos cilindros compactados que concentram energia e facilitam transporte e armazenamento.

O que antes era descartado passa a ter valor energético.

Agora, com o novo sistema, o trabalho avança para uma etapa ainda mais estratégica: entender, com precisão, o que acontece quimicamente durante o processo.

Além de produzir pellets, briquetes e carvão vegetal, os pesquisadores poderão analisar detalhadamente os compostos formados na pirólise, ampliando as possibilidades de criação de biocombustíveis e coprodutos capazes de substituir derivados do petróleo.

O professor João Moreira Neto, do Departamento de Engenharia Química e de Materiais e integrante da equipe, resume a proposta com uma comparação direta:

“É como uma refinaria. Mas, em vez de petróleo, usamos biomassa. A ideia é aproveitar integralmente os resíduos agrícolas e florestais para gerar produtos mais sustentáveis e de maior valor agregado.”

Impacto na formação de estudantes

O equipamento também tem papel estratégico na formação acadêmica.

A doutora em Química Vanúzia Rodrigues, coordenadora técnica do laboratório, explica que a equipe está passando por treinamento operacional e de aplicação.

“É um sistema sofisticado. Nosso trabalho será auxiliar alunos e pesquisadores na criação de métodos, no preparo das amostras e na interpretação dos resultados. Isso eleva o nível da formação científica.”

O sistema será incorporado às disciplinas de graduação e pós-graduação, fortalecendo a infraestrutura da UFLA na área de bioenergia e ampliando a qualificação de futuros pesquisadores e profissionais.

Para o professor Tiago José Pires de Oliveira, também integrante do projeto, o impacto é amplo.

“Estamos falando de um equipamento de última geração que fortalece a pesquisa, a inovação e a formação de profissionais preparados para atuar em uma área estratégica para o país.”

Processo técnico e importação especializada

A chegada do equipamento envolveu uma operação complexa, incluindo importação internacional, adequação estrutural do laboratório e aquisição de gases analíticos específicos.

Cristiane Figueiredo Fialho, coordenadora do setor de Compras, Pós-Compras e Importação da FUNDECC, explica que o sistema era uma das principais demandas do projeto.

“Foi um processo que exigiu acompanhamento constante. A importação levou tempo, mas conseguimos viabilizar a entrega no final de dezembro de 2025. Agora os técnicos realizam o treinamento e a etapa de aplicação.”

Com a nova estrutura, a UFLA amplia sua capacidade de produzir conhecimento científico de ponta em bioenergia, consolidando-se como referência em pesquisa voltada ao aproveitamento sustentável de resíduos agrícolas e florestais.

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