Pesquisa da UFLA investiga caminhos para produzir lúpulo no Brasil
março 11, 2026
Estudo analisa genes, crescimento da planta e manejo agrícola para adaptar a cultura ao clima tropical e reduzir dependência de importação

O Brasil está entre os maiores produtores de cerveja do mundo, com mais de 13 bilhões de litros fabricados por ano, mas ainda depende quase totalmente da importação de lúpulo, ingrediente responsável pelo aroma e pelo amargor característicos da bebida
Na Universidade Federal de Lavras (UFLA), uma pesquisa busca entender como essa planta, tradicionalmente cultivada em regiões de clima temperado, pode se adaptar às condições brasileiras.
Coordenado pelo professor Antonio Chalfun Junior, do Laboratório de Fisiologia Molecular de Plantas (LFMP/UFLA), o estudo investiga o comportamento do lúpulo em diferentes níveis — desde os genes que controlam o florescimento até o desenvolvimento da cultura no campo.


“A gente quer entender o lúpulo por completo — desde o que acontece dentro da célula até o que acontece no campo”, explica o pesquisador. “Só assim vamos conseguir construir referências para produzir essa cultura no Brasil.”
A pesquisa conta com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) e gestão administrativa da FUNDECC (Fundação de Desenvolvimento Científico e Cultural), fundação de apoio vinculada à UFLA.
Produção nacional ainda é pequena
O interesse pelo cultivo de lúpulo tem crescido no país, impulsionado principalmente pela expansão das cervejarias artesanais
Segundo dados da Associação Brasileira de Produtores de Lúpulo (Aprolúpulo), a produção nacional chegou a cerca de 88 toneladas em 2023 — volume ainda pequeno diante da demanda da indústria cervejeira.
De acordo com o Anuário da Cerveja, publicado pelo Ministério da Agricultura, o Brasil possui mais de 1.800 cervejarias registradas, e Minas Gerais aparece como um dos principais polos do setor.

O desafio da luz no cultivo
Um dos principais desafios para produzir lúpulo no Brasil está relacionado ao fotoperíodo, ou seja, à quantidade de horas de luz que a planta recebe ao longo do dia.
Em regiões tradicionais de cultivo, como Estados Unidos e países da Europa, os dias de verão podem chegar a 16 horas de luz, condição considerada ideal para o desenvolvimento da planta. No Brasil, a duração do dia raramente ultrapassa 13 a 14 horas, o que altera o ciclo natural da cultura.
“O lúpulo é muito sensível à luz. Quando recebe menos horas do que precisa, acaba florescendo antes da hora”, explica Chalfun. “Isso reduz o crescimento da planta e diminui bastante a produção.”
Para contornar essa limitação, muitos produtores utilizam suplementação luminosa, com lâmpadas instaladas nas áreas de cultivo para prolongar artificialmente o período de luz. A pesquisa da UFLA busca justamente alternativas que reduzam essa dependência.
Ciência para construir uma nova cultura agrícola
O estudo integra biologia molecular, fisiologia vegetal e produção agrícola para compreender como o lúpulo responde às condições ambientais brasileiras.
Entre os pesquisadores envolvidos estão estudantes de pós-graduação e graduação da UFLA, que investigam desde genes ligados ao florescimento até o desenvolvimento da planta em campo experimental e as estruturas microscópicas responsáveis pelos compostos que dão aroma e amargor à cerveja.
“A gente ainda está construindo o conhecimento sobre essa cultura no Brasil”, afirma Chalfun. “Mas entender como a planta funciona aqui é o primeiro passo para tornar o cultivo mais eficiente e sustentável.”










